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A Via-Sacra e a Piedade Popular

Por Frei Galiano

Foto da Catedral

A Via-Sacra e a Piedade Popular

Na Quaresma, uma das mais difundidas manifestações de fé e piedade é a Via Sacra.
Trata-se de uma devoção particularmente querida pelo povo, que faz memória da Paixão do Senhor, que O acompanha no Seu percurso que vai do Horto das Oliveiras ao Monte Calvário, e daí ao Santo Sepulcro.
A existência de inúmeras “Vias-Sacras” erigidas nas igrejas, jardins, montanhas e colinas em todo o mundo é o testemunho principal de quanto a Via-Sacra é muito caro aos cristãos.

Como é que surgiu?

Na durante a Idade Média era muito frequentes as visitas à Terra Santa que levava grande número de peregrinos à terra de Jesus. Por esta sua caraterística, o homem medieval era apelidado de Homo viator , quer dizer, o homem viajante; o viajante; o peregrino; quem está neste mundo mas caminhando para o céu.
Este profundo sentimento de transitoriedade no homem medieval alimentou as práticas de Devoções relacionadas com as Peregrinações. E Jerusalém era, desde início, um dos destinos privilegiados.

Há informações seguras destas viagens de Peregrinos aos Lugares Santos, desde o século IV, com objetivo de fazer penitência nos locais da vida terrena de Jesus, relato mais conhecido é o da Peregrinação de Etéria¹, obra de grande importância histórica, que descreve peregrinações a diversos lugares bíblicos, bem como os ritos da liturgia e a catequese em Jerusalém ao longo de todo o ano, com ênfase para o Santo Tríduo.

Por conseguinte, a Via-Sacra é a expressão de todas as Devoções medievais à Paixão do Senhor condensadas num único rito e prática: Peregrinação à Cidade Santa, devoção às "quedas" do Senhor, às suas dores no caminho (Via dolorosa), às estações ou paragens de Cristo rumo ao Calvário, etc.

A sua forma tradicional, composta de XIV estações, já vinha da primeira metade de século XVII. Foi difundida por toda a Europa sobretudo pelo Frei franciscano, São Leonardo de Porto Maurício (1676-1751).

Este santo frade impunha a Via-Sacra, muitas vezes, como penitência sacramental aos penitentes e erigia as suas Estações em todos os lados por onde passava nas suas missões de pregação. No fim da sua vida, contava-se já, só na Itália, 521 Vias-Sacras erigidas pelo São Leonardo de Porto Maurício.

Também em Roma, esta Devoção e prática da Via-Sacra deve-se a este santo frade. E se hoje o Santo Padre, na noite da Sexta-Feira Santa, celebra a Via-Sacra no Coliseu, é porque São Leonardo ali estabeleceu a Via-Sacra, no Ano Santo de 1750, autorizado pelo Papa Bento XIV.
Na altura, ele escreveu:
"Estou a ficar velho. (...) De toda a maneira, consola ver que o Coliseu deixou de ser um lugar de atração e lutas, para converter-se num verdadeiro santuário...".

A Espiritualidade da Via-Sacra

A Via-Sacra contém em si elementos fundamentais de vãrias expressões da espiritualidade cristã.
Ora, se "espiritualidade" é procurar viver impulsionado pelo mesmo espírito de Jesus, então a Via-Sacra, enquanto imitação do caminho do Calvário, conduz também os fiéis a imitarem Jesus através de uma entrega amorosa, no mesmo espírito de doação e sacrifício de Cristo.

A Via-Sacra resume também a espiritualidade da peregrinação, do Homo viator , como já referimos: a vida é caminhada, é percorrer as estradas desta vida rumo à Pátria Celeste. Mas é também a expressão visível do seguimento de Cristo (Sequela Christi).

"Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me" (Lc 9, 23).

Mas, mais do que a imitação teatral, trata-se de assumir, por expressões internas e externas, a espiritualmente a Cruz do discipulado e da missão.

Com efeito, eis o que podemos ver na oração de Bênção das Estações da Via-Sacra, propósito da Cruz que o Cristão assume:

Deus de infinita misericórdia, cujo Filho morreu e ressuscitou por nós,
para que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça,
abençoai os vossos fiéis
que fervorosamente recordam os mistérios da sua paixão,
de modo que, seguindo a Cristo e levando com paciência a sua cruz,
exultem de alegria quando se manifestar a sua glória.
Por Nosso Senhor.

Ritual da Bênção, Cap. XXXIV, n. 1109).

Algumas orientações da Igreja

A Via-Sacra é uma prática aprovada oficialmente pela Igreja, recomendada aos fiéis e muito enriquecida com a indulgência plenária. E para que ela produza adequados frutos espirituais, e não ser fonte de muitas indisciplinas, a Igreja oferece-nos algumas instruções:
  • A Via-Sacra deve ser composta de catorze cruzes ou estações, que podem ser acompanhadas ou não de imagens ou quadros que recordam as cenas do caminho da Paixão. (cf. Ritual das Bênçãos, Cap. XXXIV, n. 1098).

  • As meditações da cada estação não devem obrigatoriamente ser as tradicionais, mas pode-se utilizar outros textos aprovados, desde que dizem respeito a episódios evangélicos da Paixão do Senhor. De lembrar que algumas estações são da Tradição, não sendo narradas nos Evangelhos, como, por exemplo, a cena de Verónica que limpou o rosto a Jesus. (cf. Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Diretório sobre piedade popular e liturgia, n. 134).

  • O movimento (o caminhar), seja de todos os membros participantes, seja apenas do dirigente, é imprescindível para que o sentido espiritual da Via-Sacra seja evidenciado e experimentado: "um desenvolvimento sábio da Via-Sacra, em que a palavra, o silêncio, os cânticos, a caminhada processional e as paragens de reflexão se alteram de modo equilibrado, contribuem para conseguir os frutos espirituais desta prática de piedade." (Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Diretório sobre piedade popular e liturgia, n. 135).


Há ainda outro ponto. Muitos subsídios ou livrinhos para o exercício de Via-Sacra que acrescentam a XV estação, que faz memória da ressurreição. Ao contrário do que se poderia imaginar, a tal prática não é abusiva, não é errada, mas aprovada e, de certo modo, recomendada pela Igreja. Citamos novamente o Diretório (n. 134).

A Via-Sacra é a prática relativa à Paixão de Cristo. Entretanto, é oportuno que se conclua de tal maneira que os fieis se abram à espera, cheia de fé e de esperança, da ressurreição. À exemplo da paragem na Anástasis, no final da Via-Sacra em Jerusalém, pode-se encerrar a mesma com a memória da Ressurreição do Senhor.

De fato, já a "Peregrinação de Etéria" (séc. IV) faz referência a tal statio na Anástasis (o Santo Sepulcro) após a memória da Paixão do Senhor na Sexta-feira Santa.

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¹Obra do séc. IV, dividida em duas grandes partes:

a. Do Mar Vermelho a Constantinopla;
b. Liturgia de Jerusalém (Basílica do Santo Sepulcro).