SÉ CATEDRAL DE BISSAU

Nossa Senhora da Candelária

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Entrevista exclusiva com Casal Lopes

Por António Tavares
Fotos: António Tavares


Foto da Catedral

"QUEM CORRE POR GOSTO NUNCA CANSA"

Entrevista com Casal Lopes sobre a experiência adquerida ao longo de mais de trinta e cinco anos de convivência.

António Francisco Lopes, vulgo Tomé, Coordenador económico, Financeiro da Clínica Madrugada.

Plácida Vieira Lopes, Verificadora e Controladora de todas as receitas das Finanças.

Site da Catedral convidou o casal Lopes para poder partilhar um pouco de sua experiência com os mais novos e sobretudo com os recém-casados.

Site da Catedral (SC) - Como tudo começou?

António Lopes (Tomé): - Começo por agradecer a oportunidade concedida para poder partilhar a nossa experiência ao longo de muitos anos de casal como também poder dar os conselhos aos recém-casados. De facto, sou o mais indicado para responder essa pergunta porque fui eu a tomar a iniciativa. Eu eacute que atirei para ela. Tinha um amigo, seu primo, chama-se Vitorino Soares da Gama. Foi meu colega de estudo e meu amissíssimo. Frequentava a sua casa e nessa frequência acabei por apaixonar por ela. Pedi ao namoro, mas foi uma trajetoria muito dificil. Foi um osso duro de roer, isto porque toda a sua concentração estava nos estudos, para além de ter uma familia conservadora, em que os valores morais eram supremos.

Foto da Catedral No entanto para namorar a Plácida foi muito dificil.

"QUEM CORRE POR GOSTO NUNCA CANSA"

SC – Mas o senhor foi persistente?

Sim. Eu era tao persistente porque, diz um bom português, quem corre por gosto nunca cansa.

Gostava dela e porque tinha um objectivo, tê-la como minha esposa, uma companheira, pedi auxilio, Deus ajudou-me e consegui o que eu queria.

Depois de muitas dificuldades e persistencia tudo veio a acontecer de maneira surpreendente. Um dia, no liceu, por tanta resisténcia que vinha do seu lado, tive que usar a minha estratégia. Aproximei-me dela, ganhei coragem e pimbam, roubei-lhe um beijo. Falando a sério até nesse dia era tudo muito dificil porque andava sempre a esquivar-se.

Verdade seja dita, tudo que é dificil deixa bons frutos e isso é que aconteceu. Tudo que é dificil tem um futuro feliz.

"UM BEIJO DE SURPRESA FOI MUITO MARCANTE PARA O NOSSO NAMORO"

SC - A Plácida confirma essa dificuldade com que teve que passar o António, antes de ser seu namorado e posteriormente, marido?

Plácida Vieira Lopes: - Foi, realmente, difícil o nosso percurso amoroso. Depois daquele dia mudava de percurso para não o encontrar pelo caminho.

Foto da Catedral Hoje, graças a Deus, sou feliz e digo que valeu a pena. Ele de facto passou por tripas e corações atrás de mim. Só quero corrigir quanto ao local onde aconteceu o primeiro beijo que ele me roubou. Foi na escola dos padres quando saí do teatro, com lenço atado no peito e vestida com saia dos bijagós na cintura a espera da boleia do nosso Pároco. Foi um dia marcante, conforme disse o jornalista, mas muito dificil para mim. Fiquei a pensar o que vai acontecer depois desse beijo. Fiquei a cogitar sozinha e com os meu botons: " Uma vez que me beijou significa que já aceitei o namoro" ?... Fiquei em dúvida, não consegui dormir durante toda a noite. Deitei na cama fiquei a ver a sua imagem. Mas apesar da dúvida nunca mais deixei de pensar nele.

Passado algum tempo consegui superar através de meus colegas, Heráclito, Eva, todos de Bandim, Augusto. Prepraram-me espiritualmente, deram-me orientações e passei a fazer parte do grupo de namorados, sob encargo da irmã Josefa. Terminei essa fase e transitei para o grupo dos noivados.

Com toda a preparação que passei a ter comecei a habituar-me com a aproximação, mas com alguma cautela. Quando aproximava muito de mim, evitava para não dar na vista, não aceitava ser abraçada às claras, porque também havia algum controlo. Quando íamos na direcção a minha casa, estando Tomé na minha companhia, não o deixava aproximar. Dizia-lhe volta, volta. não queria que nos víssem, sobretudo os meus irmãos, porque dantes havia regras.

"CASAMOS EM 12 DE DEZEMBRO DE 1981, DEPOIS DE NASCERAM TRÊS FILHOS FUI CONTEMPLADO COM UMA BOLSA DE ESTUDOS AO BRASIL. A DESPEDIDA NO AEROPORTO FOI MOMENTO MAIS MARCANTE EM TODA A MINHA VIDA"

SC - Qual foi momentos mais marcantes depois do casamento?

Tomé: - Depois do nosso casamento em 1981, depois de nascerem três filhotes, fui contemplado com uma bolsa de estudo no Brasil, onde fui fazer a Administração de Empresas.

A despedida no Aeroporto foi muito emocionante. Até aí não tinha experimentado essa situação de distância, por isso deitei muitas lágrimas.

Já longe no Brasil mantinha, rigorosamente, em contacto, através do telefone. Foi a primeira separação por muitos anos. Manti sempre ligado. Foi o único recurso que tinha de matar saudades. Conversávamos toda a semana, não através do telemóvel mas do telefone fixo.

SC - E as provocações? Havia alguém que tentou seduzir o senhor Tomé no Brasil?

Ali havia tantas provocações. Só quem não passou por Brasil é que não sabe quanto é dificil para um casado estar distante da familia. Posso dizer que sou de raro estudantes que passou no Brasil e nao deixou um filho, porque soube cuidar e a minha esposa era um orgulho pra mim.

Foto da Catedral "FOI DURO A DISTÂNCIA, MAS O NOSSO FILHO DE QUATRO ANOS FOI A MINHA GRANDE CONSOLAÇÃO"

Plácida: - Foram anos muito dificil. Quando sentia isolada abria o guarda-fato e segurava nas suas vestes e sentia o aroma do seu perfume. Outra consolação foi o meu filho que era como se fosse uma encarnação dele. Dava-me um forte conforto. Abraçava-me e assumia o lugar do pai apenas com quatro anos. Dizia para mim, diga ao Tomé que acabou o gaz, que não havia leite, não temos dinheiro para comprar pão. Tudo que eu dizia ao seu pai antes de sua ida ao Brasil fazia tal igual.

Foi graças ao fruto que conseguimos do matrimónio é que consegui carregar a minha cruz.

No seu primeiro ano de férias voltou muito enfraquecido. Perguntei-lhe se não alimentava no Brasil. Respondeu-me que não é nada disso, simplesmente são preocupações do estudo e saudades da distância.

No entanto, no seu regresso decidi preparar-lhe uma ementa para a sua dieta alimentar. Antes de partir prometeu que viria de novo, para as férias, passado alguns tempos. Disse-lhe que não, pois que não dispúnhamos de nada e o que teria a despender, para vir as férias, podia servir para comprarmos outras coisas e assim organizávamos melhor. Até depois de termos casado, não tínhamos nada, para além duma cama, frigor´fico, mesinha de soltaria, onde almoçávamos e um fugão de gaz. Mas no meio de tudo havia algo mais importante ... o amor.

Tínhamos uma vida modesta, porque Deus quis que começássemos assim, sem fantasias para depois dar-nos tudo que era preciso. Hoje posso dizer que estamos realizados.

"CIÚMES NO COMEÇO, ENTRE OS DOIS, FOI SÍMBOLO DE AMOR"

SC : - Afinal quem era o mais ciumento entre os dois?

Plácida: - Ele era tão ciumento. Se estiver ao pé de um companheiro de turma ficava com tanto ciúmes. Dizía-me assim, diga-os que agora és uma menina comprometida. Tentei resistir para não afastar repentinamente dos meus colegas, mas acabei por reparar nisso e comecei também a passar o que eu aprendi durante a minha formação de namorados mostrando-lhe que como nós tambám com eles pode acantecer o mesmo, ter um parceiro ou parceira ideal, prepara-se para o casamaneto. Era uma forma de as ajudar.

Tomé: - Ela é mais ciumenta. Mesmo falando com um colega de serviço fazia ciúmes, mas tudo isso era bonito porque era simbolo do amor. Mas adiante vou explicar como é que conseguimos superar.

"O AMOR É SEGREDO DE TUDO"

Cada um tentou moldar o companheiro e conseguimos ficar até hoje. Olha, o amor é segredo de tudo isso. Longe ou perto foi amor. Durante toda a minha ausência foi amor que sustentou o nosso relacionamento. Isso, vou continuar sempre a dizer ao longo dessa entrevista. Mas outro interviniente na história é que ela passava todo o seu tempo na Igreja. Padre Neves, Dona Necas Robalo, Dona Lourdes Varela foram pessoas que deram muita força a minha esposa. Contribuiram imenso para que ela fosse o que é hoje. Aproveito para os agradecer neste momento. Todos os nomes que eu mencionei.

Foto da Catedral "UMA MULHER É PILAR DA FAMILIA" FIRQUIDJA DI FAMILIA, EM CRIOULO

SC - Qual foi o momento mais desagradante em todo o vosso relacionamento?

Plácida: - A parte mais desagradante é sofrimento. Posso dizer que a mulher é Pilar duma familia. Em crioulo dissemos "firquidja di familia". A mulher quando vê algo construido a desmoronar-se sofre na alma, mas com o diálogo resolve-se tudo.

Quando deparo com uma situaçao desagradável chamo-o e conversamos a sós, no nosso quarto ou vamos a um passeio. Conseguimos reslver o diferendo sem interven&ccedlão dos terceiros. Quando as vezes torna mais pesado recorro aos mais velhos da Igreja. Através de suas orienta&ccedlões consigo encontrar bagagem para o enfrentar de novo.

SC - E a oração não faz parte da vossa vida?

Plácida: - Rezamos. Foi a principal fonte onde bebemos espiritualmente.

Tomé: - Sempre no meio do casal há sempre momentos de dessabores. Não há nenhum casal no mundo onde isso não acontece, mas no nosso caso concreto difinimo-nos por amor. A formação religiosa que recebemos, através do padre Neves, ajudou bastante. Tudo resume-se no amor, acompanhado com perdão. Não há amor sem perdão, sem diálogo, por isso quando acontece algo de errado dialogamos. Pedimos explicações para descobrir onde está o erro e pedimos perdão um a outro. E vem o perdão porque ninguém é perfeito. As vezes sou eu a errar as vez é ela e acabamos por perdoar mutuamente. Em comum temos amor e o diálogo.

"A CONFIANÇA MÚTUA FOI O NOSSO GRANDE TRUNFO"

Foto da Catedral Como disse a bocado, quando falou de ciúmes, que de vez em quando acontece acabamos por encontrar uma solução: ter toda a confiança no parceiro. Apartir daí superamos tudo. Mesmo depois de minha deslocação ao Brasil reinou a confiança. Quando voltei passei a amar ainda mais. A confiança no parceiro foi o nosso grande trunfo.

Para além de existir tolerância, perdão, humildade... Amor, a cima de tudo, é padrão do nosso comportamento.

SC - Qual foi grande segredo do vosso relacionamento?

Plácida: - Amor é fundamental na vida de um casal. Tolerância, perdão e humildade. Ter vida a dois. Na rua andar de mãos dadas, como dizia o padre Neves, para mostrar que somos um só.

Tomé: - definimos amor como padrão do nosso comportamento. Quem ama, perdoa. Assim foi.

"NO REGRESSO A CASA, DEPOIS DO SERVIÇO, DIALOGAMOS PELO CAMINHO, FAZEMOS BALANÇO COMO FOI O DIA"

SC - Como aproveitam os tempos livres?

Tomé: - Como deve saber sou reformado. Fui funcionário da BECEAO durante nove anos. Actualmente sou Administrador da Clínica Madrugada.

Todos os dias saimos juntos de casa, levo-lhe ao seu serviço, separamos com um beijo durante o percurso de manhã.

À tarde procuro-lhe e voltamos juntos. No regresso a casa, depois do serviço, dialogamos pelo caminho, fazemos balanço como foi o dia.

SC : - Conselhos para os mais novos ou os recém-casados.

Tomé :- Que tenham a humildade. Porque num casal jovem onde não existe a humildade é difícil a sã convivência.

SC - Quais os atributos para a escolha duma parceira?

Tomé: - antes de tudo é preciso saber difinir o perfil da parceira que tu queiras. Por exemplo as vezes só vimos pela constituição física. Quando estiver bem constituida prometemos logo em casamento. Não deve ser assim. Em primeiro lugar tem que saber dar tempo para um periodo de experiência. Procurar saber se reúne as condições para poder ser mãe dos seus filhos para toda a vida. Aí está o segredo. Não se deve precipitar-se na escolha. Daí que é sempre preciso ter um periodo de preparação durante o noivado para conhecer o defeito de cada um.

Plácida: - Eu falo também de um rapaz para uma menina, porque na nossa tradição as meninas não atiram logo. O Perfil duma menina não se resume em ter melhores trajes. O perfil está na seriedade, na boa educação, na dignidade e na humildade. Saber apreciar quem vem ao seu encontro. Aprecia-se um homem pela sua dignidade. Pela sua educação de base. Quando comecei a apreciar Tomé vi que a sua educação correspondia com a minha.

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